admin/ junho 20, 2018/ Publicações, Terapias Complementares/ 0 comments

BEM-AVENTURADOS OS PACIFICADORES POR HUBERTO ROHDEN

por Blog Evolução da Alma

A palavra latina pacificare, da qual é derivada pacificus, é composta de dois radicais (e o mesmo acontece em grego): pax e facere, isto é, “paz” e “fazer”. Pacificador (em latim: pacificus) é, pois, aquele que faz a paz, é um “fazedor de paz”, um homem que possui em si a força creadora de estabelecer ou restabelecer um estado ou uma atitude permanente de paz no meio de qualquer campo de batalha.

A tradução “pacíficos”, em vez de “pacificadores”, que se encontra em muitas versões portuguesas, não corresponde ao sentido do original grego eirenopoíí, nem ao latim pac~fici, porque ambos significam um processo ativo e dinâmico, e não apenas um estado passivo de paz.

Quem é, pois, verdadeiro pacificador?

Não é, em primeiro lugar, aquele que restabelece a paz entre pessoas ou grupos litigantes, mas sim aquele que estabelece e estabiliza a paz dentro de si mesmo. Aliás, ninguém pode ser verdadeiro pacificador de outros se não for pacificador de si mesmo. Só um auto pacificador é que pode ser um alo-pacificador. A pior das discórdias, a mais trágica das guerras é o conflito que o homem traz dentro de si mesmo o conflito entre o ego físico-mental da sua humana personalidade e o Eu espiritual da sua divina individua­lidade. Se não houvesse conflito interior, entre o seu Lúcifer e o seu Logos, não haveria conflitos exteriores na família, na sociedade, nas nações, entre povos. Todos os conflitos externos são filhos de algum conflito interno não devidamente pacificado. Por isso, é absurdo querer abolir as guerras ou revoluções de fora, as discórdias domésticas no lar ou no campo de batalha, enquanto o homem não abolir primeiro o conflito dentro da sua própria pessoa.

O grande tratado de paz tem de ser assinado no foro interno do Eu individual antes de poder ser ratificado no foro externo das relações sociais. Nunca haverá Nações Unidas, nunca haverá sociedade ou família unida enquanto não houver indivíduo unido. Pode, quando muito, haver um precário armistício (que quer dizer “repouso de armas”), mas não uma paz sólida e duradoura enquanto o indivíduo estiver em guerra consigo mesmo. Que é um armistício se não uma trégua, maior ou menor, entre duas guerras? Paz social, segura e estável, supõe paz individual, firme e sólida.

Quando o homem é mau e desabrido com os outros é porque não tem paz interior e sente a necessidade de descarregar o exces­so da sua infelicidade — “nervosismo”, na linguagem eufemística de cada dia — em alguém ou em alguma coisa, e os objetos mais próximos servem de para-raios para essa tensão do homem infeliz. Propriamen­te, deveria esse homem ser áspero consigo mesmo, o principal culpado; mas, como o egoísmo não lhe permite semelhante sinceridade, são os inocentes ou os menos culpados não raro, até coisas e animais domésticos alvo dessa irritação do homem intimamente desarmonizado consigo mesmo.

Quando o homem tolera a si mesmo, graças a uma profunda paz de consciência, todas as coisas e pessoas do mundo são toleráveis; mas, quando o homem, de consciência insatisfeita, não se tolera a si mesmo, nada lhe é tolerável.

O remédio não está em mudar os objetos, mas em corrigir o sujeito. Isto, porém, supõe uma sinceridade muito difícil e rara.”

A paz é, pois, um atributo do ser, é algo qualitativo, algo que tem afinidade com o EU SOU do homem. O homem que tem plena consciência do seu divino EU SOU não tem motivo para brigar ou declarar guerra a alguém por causa dos teres, que desunem os homens profanos. Mesmo que os outros o tratem com injustiça por causa dos teres, o homem espiritual sabe que todo esse mundo quantitativo do ter é pura ilusão: ninguém pode ter algo que ele não é, só o nosso ser é realmente nosso.

Por isso, o homem que chegou ao conhecimento de si mesmo é invulnerável; ninguém pode prejudicá­-lo, ninguém pode ofendê-lo, ninguém pode empobre­cê-lo, ninguém lhe pode infligir perda de espécie alguma, uma vez que ninguém pode obrigá-lo a perder o que ele é, e aquilo que ele tem não o enriquece nem a sua perda o empobrece.

A paz nasce, portanto, de uma profunda sabedoria, do conhecimento da verdade sobre si mesmo. Quem conhece essa verdade é livre de todo o ódio, tristeza, rancor, senso de perda e frustração. ”

Uma pessoa profundamente harmonizada em si mesma irradia harmonia ao redor de si e satura dessa imponderável e benéfica radiação, todas as coisas.

As suas auras benéficas envolvem tudo em um halo de serenidade e bem-estar, de fascinante leveza e luminosidade, que atuam, imperceptível, porém, seguramente, sobre outras pessoas receptivas.

O homem que estabeleceu a paz de Deus em sua alma é um poderoso fator para restabelecer a paz em outros indivíduos, e, através destes, na sociedade. Não é necessário que fale muito em paz, que aduza eruditos argumentos propace — basta que ele mesmo seja uma fonte abundante e um veemente foco de paz.

O filósofo místico norte-americano Émerson disse, certa vez, a um homem que falava muito em paz, mas não possuía paz dentro de si: “Não posso ouvir o que dizes, porque aquilo que és troveja muito alto. ”

“Quem não é pacificado dentro de si mesmo, não pode ser pacificador fora de si”

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